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Como era A Docência na Igreja Primitiva?

A nascente comunidade cristã prolonga o ministério docente da Igreja, agora à luz da morte e ressurreição de Cristo e o advento do Espírito (At 2; 9.31; 20.28).

A Igreja Primitiva, em todas as suas formas, era sustentada e impregnada pela consciência de ser o Corpo em que habita o Espírito (1 Co 12.27). E o ministério docente da Igreja participa plenamente desta identificação. Paulo, por exemplo, esperava que seu ensino fosse acatado e posto em prática pelas comunidades por onde passava (1 Co 2.13; Cl 1.28-29; 2 Ts 2.15; 1 Tm 4.6-11).

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O que Lucas registrou em Atos dos Apóstolos, é fácil concluir: os discípulos seguiram rigorosamente as ordens do Senhor Jesus Cristo. Ensinaram Jerusalém, doutrinaram toda a Judéia, evangelizaram Samaria, percorreram as regiões vizinhas a Terra Santa (Mc 16.20). E, em menos de 30 anos, falaram do Salvador na capital do Império Romano “sem impedimento algum” (At 28.31). A Igreja cresceu ensinando a Palavra de Deus a toda criatura; expandiu-se evangelizando e discipulando.

Ao estudarmos à docência na Igreja Primitiva e, por extensão, na Igreja em todos os tempos, é preciso considerar que esta prática não se constitui numa simples atividade pedagógica humana, transmitida através de uma determinada doutrina.

O ensino na comunidade cristã do primeiro século é um dom do Espírito (Rm 12.7; Ef 4.11), não um dote individual, mas uma manifestação da multiforme graça de Deus para edificação e condução da Igreja (1 Co 12.1,7,28; 14.12).

O conteúdo do ministério docente na Igreja Primitiva concentra-se essencialmente no ato redentor de Deus em Jesus Cristo. Veja-se, por exemplo, Paulo comentando a fórmula batismal em Romanos 8.32-39; 10.9-21; ou descrevendo hinos e doxologias em Filipenses 2.5-11; Colossenses 1.12-14; ou ainda, o ensino sacramental baseado na tradição litúrgica dominical em 1 Coríntios 11.17-34.

Como se vê, o ensino doutrinário entre os primeiros cristãos não apresenta uma construção teológica autônoma, mas é dirigido pela confissão de fé, a qual só pode ser feita pelo poder do Espírito Santo, pois “ninguém pode dizer: Senhor Jesus! Senão pelo Espírito Santo” (1 Co 12.3b).

A mensagem docente de Atos 2.43-47

Imediatamente após o Pentecostes (At 2.1-42), surgiram quatro significativos sinais da Igreja nascente:

1. O ensino constante da doutrina dos apóstolos;
2. A comunhão dos apóstolos;
3. O partir do pão;
4. As orações.

Estes sinais eram manifestações inéditas, tão novas como o sermão de Pedro no Pentecostes, porque a comunidade era um novo grupo e espiritualmente mais rico, e suas orações no Templo revelavam a continuidade do Antigo Israel. Os membros da jovem comunidade cristã estava possuídos de um profundo sentido de maravilhas ao testemunhar os atos dos apóstolos!
 
Atos 2.43-47 dão-nos uma descrição do sistema de vida que ocorria entre os nossos primeiros irmãos na fé. Vemos no texto o significado do dom do Espírito Santo para a vida diária cristã. Lança um desafio à congregação moderna em termos de relações pessoais, com uma mensagem profunda para a educação cristã.

Os primeiros crentes eram conscientes da presença do Cristo Vivo. Como membros de uma comunidade em que o amor e a confiança eram virtudes supremas, consideravam a Igreja cheia do Espírito, tinham a certeza do perdão de seus pecados e se organizavam para testemunhar sua nova fé (Ef 5.18b-20; Cl 3.16-17). Eis aí os alicerces espirituais do edifício da educação cristã.

A Educação e Certos Personagens do Novo Testamento


Poucas informações dispõem sobre esse assunto, no que concerne a Jesus, mas os poucos informes que temos ajudam-nos a formar uma ideia. Ele foi ensinado por sua mãe e aprendeu de José o ofício de carpinteiro. Mui provavelmente, ele frequentou a escola da sinagoga local, onde deve ter aprendido a leitura e a escrita e onde deve ter-se ocupado em estudos religiosos.

Entretanto, nunca frequentou qualquer escola rabínica, segundo lemos em João 7.15: “Como sabe estas letras, sem ter estudado?”. Perguntavam. Apesar de sua falta de educação formal superior, foi capaz de deixar perplexos aos mais augustos líderes judeus com a sua sabedoria, quando estava apenas com doze anos de idade (Lc 2.47).

Naturalmente, quando falamos sobre Jesus, que foi o maior de todos os mestres espirituais, não podemos nos limitar a comentários sobre escolas. O seu ensino provinha do Pai, que O enviara (Jo 7.16).

Existem coisas tais como a inspiração e a revelação que vão além do que qualquer educação formal é capaz de suprir. As declarações de Jesus mostram que Ele tinha um total conhecimento das Escrituras Judaicas e de modos de interpretação, juntamente com grande variedade de ideias, resultantes dessa atividade.

Um grande mestre espiritual como foi Jesus, não pode ser avaliado, nem pelos nossos métodos científicos. Há um conhecimento por meio da razão, da intuição e da revelação, e esse conhecimento não depende de cursos acadêmicos.

Os Doze Apóstolos

Uma vez mais, nossas informações são escassas, embora possamos fazer algumas observações gerais. Visto que André, Pedro, Tiago e João foram pescadores, supomos que eles receberam pouca educação formal, provavelmente uma educação parecida com a de Jesus. Levi (Mateus) era cobrador de impostos e, como homem público que era, tinha alguma educação formal, incluindo aquela de estilo helenista.

É especificamente mencionado em Atos 4.13 que as pessoas se admiravam de Pedro e João, por causa de seus sermões vigorosos e de seu ministério poderoso, incluindo curas, porquanto se sabia que eles eram homens que não haviam recebido uma educação formal. E isso foi explicado com base no fato de que eles tinham estado com Jesus. Quem passara alguns anos em companhia do Mestre, nunca mais poderia ser um homem comum.

Paulo

Alguns intérpretes duvidam que Paulo tenha recebido qualquer educação helenizada formal; mas sua habilidade no uso do grego mostra outra coisa.

Paulo não adquiriu isso aos pés de Gamaliel, um fariseu, em cuja escola ele obtivera sua principal educação (At 22.3). Gamaliel era um doutor da lei, um membro do Sinédrio. Essa foi a principal influência sobre a vida religiosa e intelectual de Paulo; mas precisamos lembrar que ele foi criado em Tarso, um centro da erudição estóica (At 16.37; 21.39; 22.25ss).

Sem dúvida, Paulo sabia grego (como uma língua nativa), latim (outra língua nativa, pois fora criado falando diversos idiomas), hebraico e aramaico. Podemos supor que ele dominava esses quatro idiomas.

Paulo era dotado de consideráveis habilidades de estilo e de expressão. Portanto, o Espírito do Senhor escolheu-o para dar-nos uma larga porção de nosso NT. E Lucas, um judeu grego bem educado, contribuiu ainda com maior volume de escritos neotestamentários, com sua longa história - Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos.

Aqueles que depreciam a educação, e que negligenciam e desprezam a atividade intelectual e as habilidades humanas, deveriam dar atenção a esses fatos. A própria existência do NT originou-se de tais habilidades, desenvolvidas por homens que não temiam adquirir erudição e exprimi-la.

Festo interrompeu Paulo, quando ele se defendia, dizendo: “Estás louco, Paulo; as muitas letras te fazem delirar” (At 26.24).

Lucas

A narrativa do Evangelho de Lucas e Atos, quanto ao volume, representam uma percentagem levemente maior que a literatura paulina. Os estudiosos concordam que a linguagem usada por Lucas é da mais alta qualidade.

Por detrás disso havia uma boa educação, provavelmente adquirida nas escolas helénicas. Lucas era de origem gentílica, visto que não era contado entre aqueles que pertenciam à circuncisão (Cl 4.11,14). Era médico, conforme vemos em Colossenses 4.14. Isso significa que ele recebera educação formal em alguma escola pagã. Era um grego bem-educado.

Os judeus pouco valor davam à medicina e jamais a ensinaram. Mas, a íntima associação de Lucas com os judeus cristãos parece sugerir que ele também recebeu alguma instrução na sinagoga. Isso também fica subentendido em seu óbvio conhecimento da religião e das tradições judaicas.

Eusébio revela-nos, em sua História, que Lucas era nativo da cidade de Antioquia, um centro da erudição grega. Não há provas por detrás dessa declaração, mas ela é suficiente para informar-nos que um produto das escolas helénicas foi usado pelo Espírito Santo para fornecer-nos a mais volumosa porção do nosso NT, o que é um fato muito significativo, do ponto de vista da educação.

Aspectos Históricos do Ministério Docente da Igreja


Na época do papa Gregorio XI (pontificado: 1370-1378), o conceito de ministério centrava-se no chamado “governo das almas”, cuja principal finalidade era salvar os fiéis do inferno, e seu ofício era a aplicação de penitência1. Por sua vez, há uma exaltação do sacerdote como intermediário entre Deus e os homens. Aqui é oferecido o sacrifício da missa; não é a Igreja, mas o sacerdote que tem parte fundamental no culto.

Pelo lado educativo, só encontraremos alguns traços de ensino aos catecúmenos do primeiro século com base no Catecismo. Esta instrução era transmitida de forma fria e impessoal, e, se nos voltarmos para o campo das missões, estas passam a ser cada vez mais assuntos de ordens especiais, como os Irmãos Pregadores do século XIII.

A Consciência Docente na Reforma

Com o surgimento da Reforma, o ministério docente da Igreja passa por uma grande transformação, tanto em sua forma como no seu conteúdo. Em primeiro lugar, ao invés de salvar as almas do inferno como sua tarefa central, o sacerdote tem como função a pregação do Evangelho de arrependimento (Mt 4.17; Mc 1.15; Lc 13.3; 24.47).

Retomando a mensagem neotestamentária, a Reforma anuncia a salvação humana pela fé em Cristo (Lc 19.10; 1 Jo 3.16-17; Rm 3.21-26). Neste sentido, a relação pessoal do homem com Deus, em Jesus, leva ao arrependimento e à fé (Rm 5.1-2; Ef 3.12).

E a partir da Reforma que o culto passa a ser centralizado nas Escrituras. Com esta postura, ocorre um retorno às origens missionárias e educativas da Igreja. E justamente neste contexto de reafirmação da fé no Senhor Jesus que Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564) promovem a tradução da Bíblia para o idioma vernáculo.

Calvino funda as primeiras escolas públicas em Genebra, Suíça, em 1536, assinalando o início da educação nacional, sustentada e protegida pelo Estado. Este foi um passo gigantesco rumo à universalização do ensino público, se observarmos que, na Idade Média, não se educava o povo, mas apenas o clero e os nobres instruídos nos “mistérios da fé”. Percebe-se, então, na época da Reforma, o conceito amplo de uma tarefa docente necessária ao povo de Deus, não limitada simplesmente à mera instrução “religiosa”.

Deste modo, a Reforma deve ser entendida como um restabelecimento da Palavra, um esforço extraordinário para restaurar o verdadeiro rosto da Igreja, devolvendo à Bíblia o lugar central que lhe correspondia nos tempos apostólicos. Um empreendimento desta extensão provocaria uma revolução no processo de educação cristã.

Quando surgiu a Reforma, havia uma lacuna na preparação dos princípios fundamentais da fé cristã. Lutero percebeu esta necessidade premente e exortava os pais a cuidar da instrução de seus filhos, escrevendo no prefácio de seu Catecismo Maior:

 “Aquele que ignora essas coisas não pode ser contado entre os cristãos, e não deve ser admitido aos sacramentos, assim como é despedido e considerado incompetente um artesão que não conhece os direitos e habilidades de seu ofício”.

Em Zurique, Suíça, Huldreich Zwínglio (1484-1531) trata de pôr em prática uma concepção similar à de Lutero, reunia os jovens duas vezes por ano para um período de instrução. Já Calvino submete as crianças na faixa de dez anos de idade a um exame público e uma instrução complementar, se necessário. E vai além: quatro vezes ao ano - no domingo anterior à celebração da Ceia do Senhor - tem lugar um exame público, e até os adultos deviam submeter-se ocasionalmente a esses exames.

A finalidade de todo esse tremendo esforço de instrução é que cada membro da Igreja alcance o verdadeiro conhecimento da Palavra de Deus e se transforme num soldado de Jesus, como Calvino afirmava com frequência. Toda essa ação corajosa desenvolvida pelos reformadores, somada à sede de conhecimentos criada pelo Renascimento, bem como as novas possibilidades oferecidas pela imprensa e por outros meios de comunicação, moldaram o caráter pedagógico do protestantismo que vigora até hoje.

A Docência na Igreja, hoje

Nestes últimos 50 anos, têm surgido mais obras sobre o ministério docente da Igreja que em séculos anteriores desde o início da cristandade.

O curioso, neste atual surto de estudos sobre a educação cristã, é que, num tempo não muito distante do nosso, a situação era bem diferente. Por exemplo: Harrison S. Elliot escreveu um livro em 1940 cujo título era Can Religious Education be Chistin? (Pode a Educação Religiosa ser Cristã?). Elliot não só advogava a separação, mas até colocava em dúvida se a educação religiosa poderia fazer parte da Igreja.

Na verdade, o enfoque da docência na comunidade responde a uma nova orientação teológica e também a um novo conceito de educação nas ciências pedagógicas contemporâneas.

Em sua fase educacional, a Igreja toda é que ensina, e o ministério docente é parte de sua razão de ser, não uma função separada da comunidade, como ocorreu, por exemplo, com o nascimento do movimento de escolas dominicais.

Beatriz Melano de Couch, professora de Educação Cristã na Faculdade Evangélica de Teologia de Buenos Aires, chega a afirmar que:

“uma Igreja que não educa é considerada como uma comunidade cujo ministério é incompleto, onde não se pregasse o Evangelho, ou não se administrassem os sacramentos”.

Não se pode prever que direção tomará nos próximos anos o pensamento sobre a educação. Entretanto, torna-se inadiável uma redefinição da Educação Cristã à luz da redescoberta do significado da proclamação cristã, da Igreja e da tradição.

Prioritariamente, torna-se necessário desenvolver um pensamento teológico relacionado com a função docente de Cristo (tanto na encarnação como em sua atividade presente pelo Espírito Santo) e o ministério docente da Igreja, e as consequências desta relação para o conteúdo e o método de nossa educação cristã.

Referência: Educação Cristã – IBADEP | Reverberação: Subsídios EBD