A importância da Ética para o Cristão - Subsídios Dominical

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Novos Subsídios Bíblicos para as lições  O corpo de Cristo, 1° trimestre de 2024


A importância da Ética para o Cristão


Por que uma atitude é chamada de boa e correta e outra é classificada como má e incorreta? Quem define o certo e o errado? Existem normas universais que podem ser aplicadas em qualquer ocasião e lugar ou elas variam de acordo com as circunstâncias? Como a filosofia encarou essas questões ao longo de sua história? Se existe uma norma universal, em que ela se baseia — o que lhe dá essa autoridade?

E a ética bíblica, sua definição de certo e errado, qual é? O que diferencia um cristão em sua ética? Seria a ética cristã superior às demais? Como deve um cristão se comportar em um mundo tão diversificado como o nosso? E possível obedecer aos preceitos de Cristo?
Todas estas, e ainda outras questões, se levantaram e se levantam no intuito de estabelecer um padrão ou um julgamento para a ação dos homens.

I - TODOS AGEM CONFORME UM PADRÃO ÉTICO
De uma forma ou de outra, todos agem conforme um padrão ético e se apoiam em diferentes pressupostos para conferir validade aos seus critérios. Mesmo os que desconhecem a palavra e o conceito que ele envolve se utilizarão de algum padrão para realizar suas ações.
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Sobre esta questão, escreveu Marilena Chauí:
“Ao indagar o que são a virtude e o bem, Sócrates realiza, na verdade, duas interrogações. Por um lado, interroga a sociedade para saber se o que ela está habituada a considerar virtuoso e bom corresponde efetivamente à virtude e o bem; e, por outro, interroga os indivíduos para saber se, ao agirem, possuem consciência do significado e da finalidade de suas ações, se o seu caráter ou a sua índole são virtuosos e bons, realmente. A indagação ética socrática dirige-se, portanto, à sociedade e ao indivíduo”.
Com suas perguntas, esse filósofo grego incomodou muitos de seus contemporâneos, levando-os alguns a odiá-lo e outros a tornarem-se seus discípulos. Mas, com isso, ele estava criando a filosofia moral ou a ética?

II - A ORIGEM DO CONCEITO DE ÉTICA
Qual é a fonte dos critérios que um povo se utiliza para o certo e o errado? Esses critérios estão fora ou dentro de nós? São criados pela sociedade ou não passam de normas passageiras? Quebrar certos princípios é uma questão de escolha ou sempre que o fazemos as consequências são irrevogáveis? Todas as éticas são válidas, todas as fontes que geram conceitos éticos são igualmente válidas ou deve-se desconfiar das mesmas?
Todos os povos têm uma ética, que vêm de fontes variadas.

É comum conceitos que vieram de fontes variadas coincidirem entre si. Esse fato corrobora com a ideia de que certas normas éticas são válidas para todos os tempos e épocas.
Com um olhar geral sobre o assunto, poderíamos citar alguns elementos que funcionam, geralmente, como geradores de conceitos éticos e morais.

1. A TRADIÇÃO
Quando nascemos em uma sociedade, já a encontramos cercada por determinados juízos de valores. Tomamos as coisas como certas ou erradas porque isto já vem sendo feito a gerações.

Dessa forma, as noções de bom e mau acabam sendo culturais. A poligamia, por exemplo, é aceita na sociedade islâmica como algo normal, desde que haja fidelidade com as esposas. No Ocidente, a poligamia é uma distorção do casamento, um padrão que pode ser definido como imoral. Aqui, a tradição forneceu o padrão para as escolhas.

A verdade é que bons costumes podem nascer da tradição. Esses bons costumes adquirem caráter de obrigatoriedade, levando indivíduos ou grupos a adotá-los e guardá-los com extremo zelo. Isso sempre foi comum em toda a história.

Mesmo na Bíblia Sagrada, encontramos belos exemplos, como, por exemplo, o dos recabitas, narrado no livro de Jeremias, que diz:
Palavra que do Senhor veio a Jeremias, nos dias de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, dizendo: Vai à casa dos recabitas, e fala com eles, e leva-os à Casa do Senhor, a uma das câmaras, e dá-lhes vinho a beber. Então, tomei a Jazanias, filho de Jeremias, filho de Habazinias, e a seus irmãos, e a todos os seus filhos, e a toda a casa dos recabitas; e os levei à Casa do Senhor, à câmara dos filhos de Hanã, filho de Jigdalias, homem de Deus, que está junto à câmara dos príncipes, que está sobre a câmara de Maaseias, filho de Salum, guarda do vestíbulo; e pus diante dos filhos da casa dos recabitas taças cheias de vinho e copos e disse-lhes: Bebei vinho. Mas eles disseram: Não beberemos vinho, porque Jonadabe, filho de Recabe, nosso pai, nos mandou, dizendo: Nunca bebereis vinho, nem vós nem vossos filhos; não edificareis casa, nem semeareis semente, não plantareis, nem possuireis vinha alguma; mas habitareis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos dias sobre a face da terra em que vós andais peregrinando. Obedecemos, pois, à voz de Jonadabe, filho de Recabe, nosso pai, em tudo quanto nos ordenou; de maneira que não bebemos vinho em todos os nossos dias, nem nós, nem nossas mulheres, nem nossos filhos, nem nossas filhas; nem edificamos casas para nossa habitação, nem temos vinha, nem campo, nem semente, mas habitamos em tendas. Assim, ouvimos e fizemos conforme tudo quanto nos mandou Jonadabe, nosso pai” (Jr 35.1-10).

Os recabitas pertenciam a uma família de Israel que havia recebido de seu pai um princípio de abstinência de vinho e considerava aquele mandamento algo de grande valor, que deveria ser guardado. Aquele mandamento já possuía um valor moral para eles e para todos os membros daquele clã: o vinho era vedado.

Não há nada errado com esse tipo de procedimento. Toda sociedade estabelece preceitos, sendo muitos deles introduzidos sabiamente em um tempo longínquo, cuja origem se perdeu no fio da história. Muitas vezes, nem se sabe ao certo a origem daquele preceito, que, quase sempre, é atribuído a um fato lendário.

O grande problema ocorre quando é atribuído um valor divino a tal preceito que, na verdade, tem origem humana. Transgredir tal mandamento passa a ser errado, como se a pessoa estivesse cometendo uma afronta contra Deus. A distorção fica ainda maior quando este mandamento, origina- do da boa vontade de alguém, passa a ser mais importante do que os mandamentos verdadeiramente divinos. Então, se prefere o preceito do homem ao de Deus.

Foi este tipo de atitude ética que Jesus criticou nos fariseus que haviam colocado a lei oral acima dos mandamentos do próprio Deus:

“E reuniram-se em volta dele os fariseus e alguns dos escribas que tinham vindo de Jerusalém. E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam. Porque os fariseus e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes; e, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal, e as camas. Depois, perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem com as mãos por lavar? E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens, como o lavar dos jarros e dos copos, e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe e: Quem maldisser ou o pai ou a mãe deve ser punido com a morte.
Mas vós dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor, nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, invalidando, assim, a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7.1-13).

Jesus conhecia muito bem a lei oral e até as praticava, pois ela estava enraizada no judaísmo daquele tempo. Podemos até dizer que havia muita coisa boa nesta lei oral e muitos dos preceitos éticos realmente ajudavam as pessoas. O problema é que estas tradições foram colocadas no mesmo patamar da Palavra inspirada de Deus. Ou melhor, algumas vezes, era colocada acima da própria Palavra de Deus.

Regras nos ajudam e até é fundamental para a vida cotidiana, mas há uma diferença profunda entre a regra humana e o preceito divino. Doutrinas de homens são doutrinas de homens; a revelação divina é a revelação divina. Sobre isso, escreveu o apóstolo Paulo, dizendo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

2. O SENSO COMUM
Alguns não sabem explicar, de fato, porque determinada coisa é certa ou errada. Mentir, roubar, matar, entre outras, seriam atitudes condenáveis, porque todo mundo assim considera. A força da opinião pública exerce imensa influência sobre as ações dos indivíduos, de forma que, se algo não é aceito pela totalidade da comunidade ou pelo menos pela maioria, não deve ser praticada.

Geralmente, o que acontece é uma quebra lenta, em certas ocasiões, ou uma quebra brusca desses parâmetros. Certos costumes vigentes começam a ser contestados, sua validade questionada e, aos poucos, os padrões vão sendo modificados. Podemos tomar como exemplo as formas de vestir. Certas roupas hoje, consideradas adequadas, foram tidas por indecentes em outras épocas.

Não estamos aqui discutindo a validade de nenhum padrão ou afirmando que o senso comum é normativo nas questões do certo e errado. Estamos apenas verificando que, muitas vezes, o meio em que se vive tem fornecido os padrões que as pessoas se utilizam para se conduzir. O que Sócrates começou a fazer foi justamente levar as pessoas a analisarem se suas atitudes eram regidas pela reflexão e pela busca do bem ou por mero automatismo impulsionado pelo meio.

3. A LÓGICA
A filosofia, com sua análise lógica dos conceitos, também se colocou como uma forma de descobrir qual é o melhor parâmetro a ser aceito. Principalmente, o iluminismo, com sua Idade da razão, se colocou como o único e definitivo árbitro do certo e errado sobre a terra.

Achar um padrão válido para todas as questões éticas já seria algo extremamente difícil. Fazer com que esse padrão pudesse ser aceito por todos e aplicados por todos é mesmo impossível. Como resultado, a ética continuou sendo fonte de inúmeros conflitos.

Até porque, a filosofia ateísta procurou elaborar uma ética à parte da revelação divina. E essa ética procurava se base- ar em preceitos considerados científicos em seus princípios. Nem sempre as consequências foram boas. Podemos analisar uma pequena amostra quando vemos os resultados do darwinismo, quando este invadiu o campo da ética.

Divulgação: Subsídios EBD
Referência: Enciclopédia Estudos de Teologia: As principais doutrinas cristãs com explanação detalhada e objetividade. Vol. III.
Editora: SEMEIE


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