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I. O Perigo de Tentar Compensar o Amor ao Dinheiro com Obras e Religiosidade

1. O Jovem rico vai até Jesus, mas sem disposição de renunciar riquezas

O texto original de Mateus, em sua forma gramatical, afirma que um alguém (um homem) se aproxima de Jesus. De início, não passa de um anônimo e somente no versículo 22 é que ele será identificado como um jovem que possuía muitas propriedades (Mt 19.16-22). Carter (2002, p. 487) afirma que ele era “alguém da elite social, de posição privilegiada com poder econômico, social e político”. Tudo demonstra que o jovem rico realmente era uma pessoa proeminente na sociedade, a ponto de todos os evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) falarem de seu status social e poder econômico.

Lucas informa tratar de um príncipe (Lc 18.18), uma pessoa importante da sociedade judaica, como um dos oficiais encarregados da sinagoga local. Marcos chama-o apenas de “homem” (Mc 10.17), enquanto Mateus afirma que ele é um jovem que possuía muitas propriedades (Mt 19.22). Ele, portanto, fazia parte de uma minoria privilegiada que, via de regra, se beneficiava do sistema de dominação romano e da elite judaica. Provavelmente, fazia parte do judaísmo da sinagoga, apresentado por Mateus como uma instituição negativa.

O jovem rico vai até Jesus em busca de respostas aos seus questionamentos. O verbo grego utilizado para identificar sua aproximação indica que a abordagem foi respeitosa. Por mais que o jovem pareça bem intencionado e apresente uma atitude respeitosa com Jesus, o desfecho do diálogo demonstrará que ele, na realidade, não estava tão disposto a seguir a Jesus se isso necessitasse renúncias.

Independentemente de sua posição, o jovem vai até Jesus perguntar o que era necessário para obter a vida eterna. Em primeiro lugar, fica caracterizado o respeito pelo que havia ouvido e/ou visto a respeito de Jesus, pois o jovem considera que Ele sabia o caminho correto para a vida eterna ser alcançada. O evangelista não identifica como e o que o jovem ficou sabendo de Jesus; ou seja, ele pode tanto ter ouvido a respeito como presenciado seus ensinos ou sinais miraculosos sendo realizados. O certo é que ele reconhecia a autoridade de Jesus. No entanto, o reconhecimento e o interesse pela salvação não é suficiente, pois esse processo requer arrependimento e fé suficientes para renúncias e transformação de vida (Mc 1.15; Mt 9.2; Lc 17.19; At 3.19).
 
Muitas pessoas reconhecem a autoridade da igreja e a ação de Deus no meio dela a ponto de aproximar-se e procurar encontrar meios para conviver com os membros da comunidade, participar das reuniões, etc.; com o passar do tempo, porém, percebem que os sermões e ensinos vão conduzindo para uma necessidade de mudança de comportamento. Esse confronto da Palavra com a forma de vida das pessoas causa um conflito que nem todos estão dispostos a resolver. A resolução exige renúncias de coisas e hábitos aos quais essas pessoas estão tão apegadas que acabam por idolatrá-los. A nova vida com Cristo exige transformação de vida, mas nem todos estão dispostos a pagar o preço. Por isso, às vezes, ficam somente na aproximação.

2. A vida eterna com Deus não se conquista sem renúncias

Os ensinos de Jesus sobre a ética causava grande espanto aos ouvintes da Palestina do primeiro século e continua impressionando os leitores atuais. Os seus ensinos contrastavam diretamente com os costumes e cultura da época, inclusive no que se refere à correta atitude para com o uso do dinheiro.

Os evangelhos contêm mais de 90 citações de Jesus sobre as riquezas, sendo a grande maioria por meio de parábolas e no Sermão do Monte. Os judeus consideravam a vida material intrinsecamente ligada à vida espiritual, porém sob uma perspectiva bem diferente dos ensinos de Jesus. Enquanto eles apegavam-se às riquezas e justificavam suas posses como consequências de justiça, Jesus ensinava que o reflexo da justiça era o desprendimento dos bens materiais.

II. O Perigo de Perder a Vida Eterna Devido ao Apego Demasiado aos Bens Materiais


1. O conceito do termo “prosperidade” na Bíblia hebraica

Conforme já visto anteriormente, ao longo da história do povo de Israel até os dias de Jesus, o entendimento da elite religiosa, que se beneficiava de seu status religioso e interpretava as Escrituras em benefício próprio, era de que a riqueza estava intrinsecamente relacionada à justiça de Deus.

A riqueza era considerada bênção de Deus, dada às pessoas que eram justas. Proença (2008, p. 67), em um estudo nos livros sapienciais (poéticos), afirma que o termo prosperidade nesses livros não era sinônimo de riquezas materiais. Ele apresenta um quadro interessante de distinção entre as categorias “justo” e “ímpio” com base no livro de Provérbios. A comparação dá-se porque, nos textos bíblicos, a “prosperidade” era prometida somente para os justos.


Esse quadro deixa claro a confusão que era feita pelos religiosos em relação à interpretação da Palavra de Deus. Se analisar o comportamento dessas categorias nas narrativas bíblicas, eles facilmente serão identificados com o ímpio, e não com o justo, como defendiam. Ao comparar a definição do justo e do ímpio, Proença (2008, p. 67) assevera que a característica principal do justo “não é sua exuberância material, mas o compromisso ético com a justiça, a honestidade, a integridade, o bem e os pobres (Pv 29,7; ver também Jó 11,13-20)”. Ele reforça que “a riqueza pode ser entendida como uma injustiça, pois é resultado de uma distribuição desigual de bens materiais, o que afeta, naturalmente, a consciência do justo”. Diferentemente do que propagava a elite religiosa judaica, a tradição sapiencial condena o acúmulo desordenado das riquezas e aqueles que depositam nelas a sua confiança (Pv 11.28).

Tércio Siqueira corrobora com o estudo da prosperidade no Antigo Testamento ao afirmar que é um dos termos mais abusados no mundo evangélico. Ele esclarece que:

Na Bíblia Hebraica, o verbo prosperar é salah, que carrega o significado de sair-se bem e ter êxito. Na Bíblia, encontramos dois verbos que são sinônimos de salar (sic): o primeiro é Kasar, dar certo, ser correto (Ec 11,6; Et 8,5), e o outro é sakal, ser sábio, agir sabiamente (Dt 29,8; 1 Sm 18,30). Todos esses três verbos possuem o sentido de prosperar. Entretanto, o significado bíblico de prosperar possui um sentido muito característico. Assim, ser próspero é o mesmo que dar frutos (Ez 17,1-10); é ser forte, corajoso, não temer e andar nos caminhos de Deus (Js 1,1-9); é praticar misericórdia e ser leal a Deus e ao povo (Ne 1,11); é andar com sabedoria e discernir as instruções de Deus (Dt 29,9; 1 Rs 2,3); é promover a paz no mundo (SI 122,6-7); é promover o bem e agir corretamente (Jó 21,13; SI 106,5). Esses exemplos bíblicos reforçam a ideia segundo a qual prosperar não é necessariamente obter vantagens pessoais ou acumular riquezas (Jr 12,1-6). (SIQUEIRA, 2005, pp. 143-144).

Entender o conflito de interpretação entre a elite religiosa judaica e a que os textos realmente queriam expressar ajudará a entender os conflitos entre os ensinamentos de Jesus e a elite religiosa judaica e, consequentemente, a narrativa em estudo sobre o encontro de Jesus com o jovem rico.

CONCLUSÃO
Na parábola do semeador (Mt 13.22), Jesus já havia destacado o perigo que havia de a sedução das riquezas sufocar a Palavra. Ele compara essa experiência com a semente semeada entre espinhos, símbolo dos cuidados deste mundo e da sedução das riquezas, que sufocam a mensagem do Evangelho. A palavra de Jesus foi semeada em um terreno (coração) que não estava apropriado para germinar, apesar do aparente interesse do jovem rico. Se você estivesse no lugar do jovem rico, agiria diferentemente? Onde você tem colocado sua confiança?

Nosso Salvador não somente ensinou o caminho das bem-aventuranças, como também testemunhou com seu próprio exemplo de vida. Ele, tendo tudo: viveu como um pobre (Zc 9.9 cf. Mt 21.5); chorou pelos necessitados (Lc 19.41; Jo 11.35); tratou a todos com humildade e mansidão (Mt 11.29; 26.66-68); teve fome e sede de justiça (Mt 17.17; 21.12,13); foi misericordioso (Mt 9.13; Jo 8.3-11); era um pacificador (Mt 20.24-28); e foi perseguido por causa da justiça (Jo 11.46-53; 18.19-23).

O problema não é ser rico, mas não saber lidar com as riquezas. E você, como tem lidado com o dinheiro e seus perigos?

FonteCobiça e Orgulho – Combatendo o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida. Editora CPAD | Autor: Pr. Natalino das Neves.
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